Foi um fenômeno paranormal que aconteceu há pouco tempo e a ciência ainda não conseguiu explicar, tampouco eu, mas vamos lá.
Era um casal que havia saído numa noite de sexta para assistir à ópera. Ele um pouco a contragosto, aliás, muito à contragosto, mas vá lá: a menina tinha dotes que valiam a pena.
Chegaram em suas roupas chiquérrimas de noite, de acordo com a ocasião, ocuparam seus assentos e puxaram para si o programa da noite. Ele leu com um desinteresse absoluto, ela com toda a pompa possível. Levara até um binóculos, daqueles de prata e cheio das frescuras, o que ele achou um exagero. Fazer o quê? “Ela é estonteante”, pensava consigo mesmo. O jeito era esperar e ver no que daria aquela cantoria toda.
E o espetáculo começou. Afundou na cadeira e suspirou. Tencionara olhá-lo com ar de desaprovação, mas rapidamente conteve o gesto e voltou-se para o palco.
Ainda no inicio do primeiro ato, ele percebera que a gravata afrouxara. Mas ele não havia se mexido, e só depois de algum tempo notara esse fato estranho. Ela nada notara.
Ainda no primeiro ato, ao olhar para ele, ela assustara-se. Seu cabelo estava desgrenhado. Ela olhava para ele, para o cabelo, para ele de novo e para o cabelo novamente. Ele percebeu a movimentação e perguntou: “O quê?” Ela sacudiu a cabeça e tentou penteá-lo, discretamente – como se fosse possível num teatro lotado – com as mãos, sem sucesso. O cabelo teimava em ficar bagunçado. As coisas estavam ficando estranhas.
De repente foi a vez da casaca. Subitamente, sem que nenhum dos dois percebessem, ela estava com rasgos em cada uma das mangas. Foi ela quem percebeu primeiro, e soltou um gemido de espanto. Ele nada fizera, nem se mexera para provocar essa alteração. E ela sabia, estava ao seu lado. Ele ficou cada vez mais confuso, e começou a temer que as coisas piorassem: pensou em abandonar o lugar, mas sua movimentação só faria chamar mais a atenção. Afundou-se ainda mais na cadeira, com o rosto quase em chamas de imaginar o fim do espetáculo.
As coisas foram piorando num grau escalar antes mesmo de acabar o primeiro ato. Já não usava as calças do conjunto da casaca, era agora um jeans rasgado. Pulseiras com rebites apareceram no seu pulso. Seu cabelo começou a avermelhar nas pontas e surgiu um par de cílios postiços na parte de baixo das pálpebras, ao melhor estilo de Alex do livro/filmeLaranja Mecânica. A cada transformação ocorrida o desespero dos dois aumentava, ele só queria sair dali, ela só queria que uma fenda se abrisse no chão para eles desaparecerem sem dar notícia nem ao Bispo (o Bispo estava no camarote do teatro).
A esse momento algumas pessoas perceberam aquela inquietação toda. E, noa exata hora em que acabou o primeiro ato – já estava, àquela altura, com uma camiseta do Misfits, sombra em torno dos olhos e com um par de coturnos – , PUF! Ele sumiu no ar, do nada, sem explicação alguma. No seu assento só jazia um bilhete: “Tô fora! P.S.: odeio música clássica. Passar bem.”
O segurança disse ter visto um rapaz em “trajes não condizentes com o espetáculo” sair correndo pela porta, pisar num montinho de “bosta canina”, voltar para o salão do teatro e esfregar os coturnos no tapete. Depois arrepiou carreira “tresloucadamente” rua afora (aos cocainômanos: “arrepiar carreira”, um dia, já foi sinônimo de “correr desenfreadamente”). Termos do segurança.
Mas a história não para por aí. Ele entrou no primeiro estabelecimento punk que encontrou, encostou na primeira menina punk que encontrou e deu-lhe o primeiro beijo punk que pode. Ela respondeu na mesma força e intensidade. Spunk punk violento.
Já se passaram anos desde o ocorrido, e ele vive muito bem com a mesma menina. Tem os dois um lindo casalzinho punk, e o terceiro está a caminho. Quanto à menina que gostava de ópera, ela ficou mal um tempinho, mas encontrou um rapaz à sua altura. O difícil é ela olhar pra cara do ex, pois ele a deixou constrangida “pra caralho” (com seus próprios termos). Apesar disso, todo mundo sabe que ela carrega um caminhão de bosta pelo cara. Só não se sabe se é “bosta canina”.
A ciência ainda não conseguiu explicar, tampouco eu, mas vamos à moral.
Alguns gostam de caviar. Outros não. Alguns acham que tem sabor de bosta, alguns acham, especificamente, que tem sabor de “bosta canina”. Mas, chique mesmo, foi ele. Ri à toa, não tem amargura nenhuma e caga para o que falam/pensam dele.
Outros tanto carregam caminhões de bosta.
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