De mar pra água doce.
Posso ver daqui,
entre o Sol e meu olhar,
seu próprio olhar curioso
a mirar a superfície verde da lagoa.
Algo reluz:
"Que tem lá, querido?
Acharemos algo de valor?
Tornaremo-nos príncipe e princesa,
seremos capa de revista,
chamar-nos-ão para festas distintas!"
Logo tu,
que nunca quiseste coroa!
Mas algo em teu sorriso mudou
tão repentinamente
que mal percebi se foi de momento
ou se o carregava a mais de ano.
Nesse lago parcialmente raso,
qual de nós terá coragem de descer,
ponta-cabeça, até o fundo,
tocar-lhe com as mãos?
Que encontraremos lá embaixo?
Entre troncos e cavernas submersas,
haverá lodo, anéis, tesouros?
Saberia dizer perfeitamente o que há lá,
mas esse teu sorriso...
Pensai bem antes de dirigir-se ao pé dessas águas turvas:
lembra-te que me arrastarei contigo
(não faz meu estilo deixá-la só, esse nunca fui eu).
Lembra-te que arrasta outro junto.
Talvez o fôlego dê,
talvez nos afoguemos antes.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Marejar
É tanto mar que a alma apequena.
Se enfrento o mar com meus olhos vivos,
É porque o desconheço.
Não vejo a força do seu arrasto:
posso imaginá-lo
terrível, atraiçoador,
devorador do que um dia foi vivo.
É porque o desconheço.
Não vejo a força do seu arrasto:
posso imaginá-lo
terrível, atraiçoador,
devorador do que um dia foi vivo.
Quantas almas já tragadas foram
antes da minha?
Quantos homens jazem ali,
a poucos metros,
Nas espumas de suas cristas?
antes da minha?
Quantos homens jazem ali,
a poucos metros,
Nas espumas de suas cristas?
O mar não dá aviso de sua potência.
E, em uma noite que,
previamente,
sei que não haverá luar,
adianto-me a ele.
A ele estarei intimamente ligado.
Que eu me perca nele hoje e por toda a minha vida
a partir de agora.
Traga-me,
e não me permita voltar.
previamente,
sei que não haverá luar,
adianto-me a ele.
A ele estarei intimamente ligado.
Que eu me perca nele hoje e por toda a minha vida
a partir de agora.
Traga-me,
e não me permita voltar.
Amém.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Finjo Não Importar-Me
Como descrever algo que pertence ao visual?
Uma linda manhã de sexta-feira.
Olhei pela manhã de uma sexta a coloração avermelhada das bordas das nuvens que pairavam no céu. Olhava para o oeste: sabia, portanto, que estava amanhecendo. O sabia antes de olhar para as nuvens, claro. Mas o avermelhado do princípio das nuvens me dava a certeza.
Claro que de dentro do carro poderia ter feito aos outros notarem o que eu via. Mas desnecessário fazer isso. Era momento meu, unicamente. E sorria por não compartilhar com ninguém mais. Era meu, bastava.
Não, não quis puxar papo com ninguém. Eu estava respirando o ambiente, com uma brisa gelada fazendo os pelos da barba endurecerem. Não era um incômodo, propriamente. Era a comodidade de me saber livre de preocupações e pleno de segredos. Vivo, compreende? Um novo dia.
Cada um que note o céu como bem entende.
Foi um pássaro negro que me fez notar essa imagem. Mais que imagem, sensação e consciência. Um dia a mais cabendo no esgar de um sorriso que transbordava de meu peito. Conscientemente escondido, inconscientemente demonstrado, abafado por egoísmo, puro egoísmo.
Não sou eu que farei aos outros notarem a beleza de um amanhecer potente e invencível.
E, nesse meio-tempo, as asas negras desapareciam, não sei ao certo se por detrás de um poste, um armazém ou por detrás de minhas retinas. Nunca saberei ao certo. Mas estava lá.
Estávamos todos lá, e ninguém além de mim. Vivos - e, espero, caso você não tenha notado aquela manhã de sexta-feira, que note as que virão.
Estamos recheados de dias da semana.
Um sorriso para todos vocês.
Uma linda manhã de sexta-feira.
Olhei pela manhã de uma sexta a coloração avermelhada das bordas das nuvens que pairavam no céu. Olhava para o oeste: sabia, portanto, que estava amanhecendo. O sabia antes de olhar para as nuvens, claro. Mas o avermelhado do princípio das nuvens me dava a certeza.
Claro que de dentro do carro poderia ter feito aos outros notarem o que eu via. Mas desnecessário fazer isso. Era momento meu, unicamente. E sorria por não compartilhar com ninguém mais. Era meu, bastava.
Não, não quis puxar papo com ninguém. Eu estava respirando o ambiente, com uma brisa gelada fazendo os pelos da barba endurecerem. Não era um incômodo, propriamente. Era a comodidade de me saber livre de preocupações e pleno de segredos. Vivo, compreende? Um novo dia.
Cada um que note o céu como bem entende.
Foi um pássaro negro que me fez notar essa imagem. Mais que imagem, sensação e consciência. Um dia a mais cabendo no esgar de um sorriso que transbordava de meu peito. Conscientemente escondido, inconscientemente demonstrado, abafado por egoísmo, puro egoísmo.
Não sou eu que farei aos outros notarem a beleza de um amanhecer potente e invencível.
E, nesse meio-tempo, as asas negras desapareciam, não sei ao certo se por detrás de um poste, um armazém ou por detrás de minhas retinas. Nunca saberei ao certo. Mas estava lá.
Estávamos todos lá, e ninguém além de mim. Vivos - e, espero, caso você não tenha notado aquela manhã de sexta-feira, que note as que virão.
Estamos recheados de dias da semana.
Um sorriso para todos vocês.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Micro Contos
Às vezes é tão curtinho que não dá pra postar somente um.
Entrou no bar, punho em riste:
- O Diabo é que ela não entende! A distância é necessária, pelo menos um tiquim assim. Por que infernos ela não vê que eu estou sempre junto a ela? Nossa alma não separa mais. Se nós tivéssemos 20 anos ainda, vá lá...Que é isso que você está bebendo?
- Conhaque.
- Dá-me cá.
Virou de uma talagada, estalou a língua, limpou a boca com as costas das mãos.
- Percebeu?
Sorrindo, o balconista respondeu:
- Percebi.
Deixou uma dose de conhaque na pendura e partiu.
Entrou no bar, punho em riste:
- O Diabo é que ela não entende! A distância é necessária, pelo menos um tiquim assim. Por que infernos ela não vê que eu estou sempre junto a ela? Nossa alma não separa mais. Se nós tivéssemos 20 anos ainda, vá lá...Que é isso que você está bebendo?
- Conhaque.
- Dá-me cá.
Virou de uma talagada, estalou a língua, limpou a boca com as costas das mãos.
- Percebeu?
Sorrindo, o balconista respondeu:
- Percebi.
Deixou uma dose de conhaque na pendura e partiu.
* * *
O médico entrou no quarto. Um casal de idosos: ele na cama, ela apertando-lhe a mão.
Respirando com dificuldade, o senhor pergunta:
- Cumpri as que lhe havia prometido?
Ela, rosto cheio de orgulho e sorriso aberto, responde com muita dificuldade (a emoção tomara-lhe conta):
- Todas.
Ele sorriu e partiu.
Ela chorou e ficou.
O médico não sabia qual promessas eram, talvez todas. Mal conseguia ficar ali de pé. Precisava sair, precisava de uma cadeira, precisava ver a esposa, precisava qualquer coisa. Chorou até não poder mais.
E quem não?
Quisera todos pudessem partir assim. Em paz.
* * *
Ele entrou no quarto e viu o filho rabiscando as paredes. Desenhava um sol. Ele sorriu e ficou assistindo.
- Um sol, filho?
- É.
Entra o marido, olha pro filho e faz um olhar de reprovação:
- Rabiscando o quarto? Não vai dar nem um puxão de orelha, querido?
- Tá doido?! Deixa ele rabiscar.
E emenda:
- Esse vai ser poeta.
O outro suspira, resignado:
- Eu queria mesmo é que fosse advogado. Mas vá lá: numa dessa me sai um Camões...
O esposo olha para o marido, e negativando-o com a cabeça, sorri: dá pra ver que o marido não entende nada de poesia.
O sol está torto.
Tá na cara que será um Drummondezinho.
* * *
Entraram de mãos dadas no bar. A banda tocava, e, enquanto todos somente a escutavam, eles dançavam. Logo chamaram a atenção, e o burburinho foi grande:
"Mas ninguém dança aqui!"
"Pô, mas música não é pra isso mesmo?"
"E se a gente também..."
Logo foi o primeiro casal, alguns solitários e outros em grupos. Afastaram as mesas para os lados, invadiram o salão e dançaram. Dançaram até amanhecer o dia.
Foram todos para suas respectivas casas, cantarolando. Pés doloridos, mas com um imenso sorriso no rosto.
Divertiram-se, foi isso.
E o Sol lá fora, ninando-os em seus sonhos.
quarta-feira, 27 de março de 2013
Apenas Mais Uma Entre Tantas E Tantas E Tantas Definições De Amor
Para Day.
A praia estava deserta ao amanhecer, e eles estavam ali, sentados, braços entrelaçados. Altamente recomendável para qualquer casal que seja.
A brisa é fria.
O som é onda - literalmente.
É muito mar.
Ali estavam, abandonados, entregues e cúmplices de um momento só seu. Era entendimento comum entre os dois, e, apesar de não saberem, compartilhavam o mesmo feeling.
Quando não é preciso câmera, filmadora, compartilhamento na net. Ali, presente, está o fingerprint que os marcará para sempre. Tá no peito.
Ele olhando pro mar, surge o rosto dela por detrás do rosto do amado. Ela está sorrindo, notando-o, percebendo-o. Ele saca, devolve o olhar e o sorriso.
As cabeças se encostam uma à outra, suavemente, como num abraço. Dois corações se encontram, mesmo ritmo. Eles batem juntos juntos juntos, juntos de tão perto.
O mar tá ficando brabo. E quem há de notar? Só os dois, vistos de costas, horizonte cortado por céu e mar.
Acho que amor é isso. Só pode ser isso.
A praia estava deserta ao amanhecer, e eles estavam ali, sentados, braços entrelaçados. Altamente recomendável para qualquer casal que seja.
A brisa é fria.
O som é onda - literalmente.
É muito mar.
Ali estavam, abandonados, entregues e cúmplices de um momento só seu. Era entendimento comum entre os dois, e, apesar de não saberem, compartilhavam o mesmo feeling.
Quando não é preciso câmera, filmadora, compartilhamento na net. Ali, presente, está o fingerprint que os marcará para sempre. Tá no peito.
Ele olhando pro mar, surge o rosto dela por detrás do rosto do amado. Ela está sorrindo, notando-o, percebendo-o. Ele saca, devolve o olhar e o sorriso.
As cabeças se encostam uma à outra, suavemente, como num abraço. Dois corações se encontram, mesmo ritmo. Eles batem juntos juntos juntos, juntos de tão perto.
O mar tá ficando brabo. E quem há de notar? Só os dois, vistos de costas, horizonte cortado por céu e mar.
Acho que amor é isso. Só pode ser isso.
terça-feira, 26 de março de 2013
Jacó
Uma ida ao supermercado (hoje - que é hoje? Poderia ter sido ontem. Saco.). Comprei tempero baiano, R$ 0,98.
Não quero ter
ao acordar
de algum sonho estúpido
a ausência de meu sorriso
nem a saudade de abraços apertados.
Um velho de calças moles
caminha ao largo
de um lugar que somente eu conheço,
não vale a pena citar.
Ficarei assim,
moído?
O Tempo chegará e dizer-me-á:
"Pois pois, estás fodido.
Venho te dar péssimas novas.
Eu, o Inexorável,
estou aqui para lhe alertar
do porvir: és velho,
idoso,
sua vida desancou.
Abraça-me."
O velho é triste.
Leva-me antes.
Antes.
Antes o inexperiente
ao inútil
acaso assim ficar.
A Juventude anda ainda de mãos dadas comigo.
E tu, jovem como eu,
clama por uma ou duas aventuras terrenas,
que não te faças vazio.
Pois se acaso oco ficar
despojado de tudo que é felicidade
sem pai, nem mãe,
sem irmãos,
sem amigos,
quando tudo for política,
resistência inútil,
aí terás
tão somente
coito
e morte.
terça-feira, 5 de março de 2013
Porque Detesto Musicais
Não vejo sentido nesse gênero, muito menos graça. Pra falar a verdade, comparo os produtores de musicais a cronistas esportivos.
Imagine você no ônibus, indo para o serviço. Após pagar a passagem, o cobrador lhe dá o troco, e você diz "obrigado". De repente, todos no ônibus se levantam e começam a cantar:
♫ "Obrigado, obrigado/que palavra linda de dizer
Obrigado, obrigado/as crianças deveriam aprender a dizer ao nascer!" ♫
Aí todos começam, como que por encanto, a dançar no mesmo ritmo e com passos sincronizados:
♫ "Quando alguém um favor lhe fizer/saiba bem o que responder
Obrigado, obrigado/esteja sempre pronto a dizer!" ♫
Aí você desce do ônibus, vai acender um cigarro (apenas imagine que você fuma), e então percebe que esqueceu o isqueiro em casa.
"Puta que pariu, esqueci o isqueiro!"
Trezentas mil pessoas aparecem com isqueiros acesos para acender o seu cigarro.
♫ "Isqueiro, isqueiro/foi o homem que inventou
Prometeu nos deu o fogo/então o homem se queimou!" ♫
Então, roubam o seu cigarro e o rebentam no chão. Você, puto da cara, fica assistindo à cena:
♫ "Mas o cigarro faz mal/melhor pra você é caminhar
Pare de pegar o ônibus/e vá a pé trabalhar!" ♫
Subitamente, todos somem com seus passos ritmados.
Aí você chega ao serviço (sem ter fumado), e lhe dá uma dor de barriga. Tu se encaminha ao banheiro, baixa as calças e se alivia. Quando vai procurar o papel higiênico, vê que não tem mais. Aí, você mete a mão no rosto e solta um "puta que pariu!"
Todos no escritório:
♫ "Puta que pariu/puta que pariu
acabou o papel do banheiro
Puta que pariu/puta que pariu
vai ficar cagado o dia inteiro
Se você for um cara audaz
abrirá a carteira e se limpará com uma nota de cem reais...
...ou então ficará assado
e terá que usar Hipogló..." ♫
Então entra uma criança em cena caminhando lentamente até o corno que lidera a coreografia e a canção e diz:
"Nã-nã-não! É proibido merchandising!"
O crowd faz "ooowwwnnn!!!"
Então o corno sorri, olha a criança de lado, se abaixa até ficar na altura dela e brinca com o seu nariz:
"Ok, então!"
A música entra em ritmo lento, aparecem dançarinas de maiô fazendo o cancan e cantando, abraçadas:
♫ "Se não limpar essa bunda/vai ficar com o cu assadoooooooo...
Com o cu assado/ninguém o irá querer como namoradoooooo!" ♫
E, pra finalizar, aparece o Miguel Falabela com uma camisa social, gravatinha rosa e coletinho florido por cima, fazendo pose de toureiro espanhol e gritando:
"EEEEEEPAAAAAA!"
Se você conseguiu imaginar tudo isso, deve ter uma mínima noção que seja do porquê de eu não gostar de musicais, muito menos de Glee.
Imagine você no ônibus, indo para o serviço. Após pagar a passagem, o cobrador lhe dá o troco, e você diz "obrigado". De repente, todos no ônibus se levantam e começam a cantar:
♫ "Obrigado, obrigado/que palavra linda de dizer
Obrigado, obrigado/as crianças deveriam aprender a dizer ao nascer!" ♫
Aí todos começam, como que por encanto, a dançar no mesmo ritmo e com passos sincronizados:
♫ "Quando alguém um favor lhe fizer/saiba bem o que responder
Obrigado, obrigado/esteja sempre pronto a dizer!" ♫
Aí você desce do ônibus, vai acender um cigarro (apenas imagine que você fuma), e então percebe que esqueceu o isqueiro em casa.
"Puta que pariu, esqueci o isqueiro!"
Trezentas mil pessoas aparecem com isqueiros acesos para acender o seu cigarro.
♫ "Isqueiro, isqueiro/foi o homem que inventou
Prometeu nos deu o fogo/então o homem se queimou!" ♫
Então, roubam o seu cigarro e o rebentam no chão. Você, puto da cara, fica assistindo à cena:
♫ "Mas o cigarro faz mal/melhor pra você é caminhar
Pare de pegar o ônibus/e vá a pé trabalhar!" ♫
Subitamente, todos somem com seus passos ritmados.
Aí você chega ao serviço (sem ter fumado), e lhe dá uma dor de barriga. Tu se encaminha ao banheiro, baixa as calças e se alivia. Quando vai procurar o papel higiênico, vê que não tem mais. Aí, você mete a mão no rosto e solta um "puta que pariu!"
Todos no escritório:
♫ "Puta que pariu/puta que pariu
acabou o papel do banheiro
Puta que pariu/puta que pariu
vai ficar cagado o dia inteiro
Se você for um cara audaz
abrirá a carteira e se limpará com uma nota de cem reais...
...ou então ficará assado
e terá que usar Hipogló..." ♫
Então entra uma criança em cena caminhando lentamente até o corno que lidera a coreografia e a canção e diz:
"Nã-nã-não! É proibido merchandising!"
O crowd faz "ooowwwnnn!!!"
Então o corno sorri, olha a criança de lado, se abaixa até ficar na altura dela e brinca com o seu nariz:
"Ok, então!"
A música entra em ritmo lento, aparecem dançarinas de maiô fazendo o cancan e cantando, abraçadas:
♫ "Se não limpar essa bunda/vai ficar com o cu assadoooooooo...
Com o cu assado/ninguém o irá querer como namoradoooooo!" ♫
E, pra finalizar, aparece o Miguel Falabela com uma camisa social, gravatinha rosa e coletinho florido por cima, fazendo pose de toureiro espanhol e gritando:
"EEEEEEPAAAAAA!"
Se você conseguiu imaginar tudo isso, deve ter uma mínima noção que seja do porquê de eu não gostar de musicais, muito menos de Glee.
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