Algures, um senhor corpulento sentado debaixo duma árvore, suando e conversando ao celular:
- ...dormindo direito mais. Pois é, rapaz. Ando com a pressão alterada. É daquela que cai e sobe, sabe? Esqueci o nome. Aham. Ah, mas eu parei, agora ando comendo tudo amargo. Acelga, jiló... Jiló sem molho mesmo, cozidinho. Ando comendo toda noite. Ô gosto ruim aquilo, meu! Num desce direito, não. (Pausa) Uhum. Uhum. Queeeee nada, rapaz! Já fui! Falou em entrar na faca! Me passou uma porrada de medicamento pra controlar, sabe? Não, não gasto muito não, até que tá baratinho. Num eu pago 6, 10 reais. Mas eu esqueço de tomar a praga do remédio, quando vou ver já tô ruim de novo, ah, vontade jogar fora tudo aquela merda! Uhum, já sabe sim, fica preocupada, né? Fica em cima, anda ligando direto pra saber como ando, tadinha! Veio aqui na sexta, ficou até domingo, mas falei pra ela, ela me viu comendo jiló e tudo mais... Mas acho que vou ter que entrar na faca mesmo. Sim, pro coração. Ele disse que recupera rápido. Meu Jesus, tô com um dinheirinho na conta, mas vai tudo, sabe? Dá uma pena de gastar... Eu querendo trocar essa nojeira desse carro véio, mas vou fazer o quê, né? Morto eu não ando mais nem nessa nojeira. Melhor marcar essa bosta dessa cirurgia logo e ver no que dá. Não vou ficar comendo jiló sem molho pro resto da vida!
Pequena pausa depois de um "ai, ai!" precedido de suspiro:
- E a tua diabetes, como tá?
sábado, 25 de abril de 2015
Papo Leve
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
+1
Tem uma menininha aqui em casa chamada Sophie que vive preocupada com datas comemorativas: quando vai ser a Páscoa, o Natal, o Dia das Crianças e, claro, seu aniversário.
Vez ou outra ela me aparece com essas perguntas:
- Pecão, quanto falta pro Natal?
- Dois meses.
Como não compreende ainda a passagem do tempo, ela me pergunta quantos dias são 2 meses:
- Uns 60 dias.
- TUDO IIIIIIISSOOOOOOOO?
É, tudo isso.
Semana passada ela me perguntou do aniversário:
- Ih, Sossô, aniversário agora só no ano que vem.
- Ah, que chaaaatooo!
E emendou:
- Pecão, a gente cresce só quando faz aniversário, tudo de uma vez?
Expliquei que não, que a gente não para de crescer, toda hora crescemos, até uma certa idade: dizem que depois até diminuímos.
Ela ficou razoavelmente satisfeita com a explicação. Eu, nem tanto.
É claro que ela queria saber sobre o tamanho, a altura. Mas não necessariamente paramos de crescer, não, Sossô. Pelo menos enquanto queremos. Um exemplo: antes você gostava de Galinha Pintadinha, hoje de Monster High. A Galinha já não te satisfaz. Já pensou gostar de Galinha Pintadinha pro resto da vida? - se bem que, desde que me lembro, gosto do Chaves, mas isso não vem ao caso. Bom, pode bem ser que você goste de ambos pelo resto da vida.
Caramba, complicado explicar. Vou dar outro exemplo.
Você sempre pergunta se, quando a gente come semente de fruta, nasce um pezinho da fruta na nossa barriga. E eu te digo que não, que quando comemos a semente ela sai da nossa "pança gorda" pelo jeito natural, como sai todo o resto. Respondo assim para você perder o receio de comer melancia - e, claro, não me dar ao trabalho de tirar semente por semente. Mas, mais alguns anos pra frente, você terá noção de que era uma resposta simplista. Veja: os passarinhos comem algumas sementes e, depois de passarem pelo processo digestivo das aves, as sementes brotam por aí, crescendo assim as plantas. Mas pra você entender isso precisará antes entender como funciona o processo digestivo das aves, o sistema reprodutor das plantas, suas táticas para que atraiam os pássaros a comerem seus frutos, et cetera, et cetera. A ideia que passo agora para você um dia não caberá em si, e o seu aprendizado se expandirá. Isso também é crescer.
Mais um exemplo, agora comigo: tem algo que as pessoas vestem que são as chamadas "gola V". Usei durante um tempo, e hoje não há força no mundo que me faça vestir algo parecido! Antes eu achava o.k. - como diria o Cavaleiro Sanguinário do Hora de Aventura: "TSC! TSC!" - , agora quando me lembro que usava me vem a frase "teu passado te condena". Mudamos. Mudança também é crescer.
A gente cresce que nem percebe, Sossô. Ontem eu lembrava que era meu aniversário: hoje, se eu não acordasse com um bom dia da sua mãe me lembrando dele, era capaz de lembrar só lá pela tarde.
Crescemos sem parar, é ininterrupto. Aniversários talvez ajudem somente a nos notarmos crescidos, talvez por nos percebermos um ano mais velho e nos leve a uma análise do tempo, da vida.
Não ficarei maior a cada ano (talvez só para os lados, mas eu sou daqueles E.T.s que comem, comem e não engordam): você sim. E ambos cresceremos. Pro-me-to!
Só não expliquei ainda tudo isso pra você porque, depois que eu respondi que a gente cresce a toda hora, você me disse:
- A vó Dina disse que a gente percebe que cresceu quando nossas roupas não cabem mais na gente.
Espantado, concordei. Pois é assim mesmo, inclusive com nossas idéias. Elas não cabem na gente. Algumas abandonamos, outras agregamos e outras tantas incrementamos. Isso é crescer.
Eu nunca explicaria melhor.
terça-feira, 1 de julho de 2014
Atropelo
Filha chama a mãe de mesa posta sentada com o marido venha comer que tá pronto ao que ela não responde e chama de novo e de novo e nada de ela responder ao que o marido não dá bola porque é típico da filha e ele diz isso à esposa que nos tempos dele era diferente mas essa rapaziada de hoje em dia sabe como é porém a mãe a chama novamente e o silêncio vindo do quarto lhe é gritante e ela diz vou subir para ver porque ela não desce.
O marido não dá bola vai ver que ela está no celular ela não larga dele diz ele sem ser ouvido para em seguida fazer cara de concordância com o acontecido típico pensa ele e a esposa demora a descer e ele fica curioso por que elas não desceram ainda uma pequena tensão toma conta dele e se assusta com a mulher gritando para ele ela não está em casa onde será que ela foi o marido talvez tenha dado uma saidinha não se aborreça não nega ela aparece mais tarde e ela grita novamente ela fugiu e ele fugiu como?
Ela fugiu ouve novamente e ele como assim enquanto sobe as escadas e a esposa o encontra no topo da escada ela fugiu tem roupa espalhada pela cama toda e a mala não está no guarda-roupa ele vai até o quarto verificar e realmente as roupas estão espalhadas e a mala não está lá ela só pode ter fugido com aquele sem-vergonha do Lúcio Flávio mas eles vão ver só pensa e pede amor ligue pros pais do Lúcio Flávio e pergunte para onde foram esses dois filhos da puta que eu vou lá na casa dele e a esposa quando eu puser as mãos nas orelhas da Lucinha ela vai ver só uma coisa e saem os dois esbaforidos de casa sem ao menos fechar a porta com tempo suficiente apenas para que ele pegasse a chave do automóvel.
Alheio a tudo, Mingau apenas abana o rabo, sentindo o aroma dos bifes do jantar repousados nos pratos. Percebendo-se sozinho, leva alguns momentos para decidir subir na mesa e, no momento exato em que prepara o pulo, ouve uma freada e um som surdo de batida.
E corre para ver o que aconteceu.
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Colhei
Corre colher o trigo, jovem.
Corre oferecer a tua amada
antes que o tempo de seca
o faça quebradiço entre os dedos.
Porque poderá oferecê-lo nunca
ou com algum tempo de atraso.
E acaso esse seja o caso,
o de tê-la envolvida em seus braços,
maldirá os dias, horas,
todos os lindos
momentos sublimes desperdiçados.
Escrito e esquecido em 11 de setembro de 2013.
terça-feira, 29 de abril de 2014
Cartinha Despretensiosa ao senhor Luciano Huck
Senhor Luciano Huck, olá.
Gostaria de começar lhe informando de que não sou seu fã, e que não fui nem nunca o serei. Acompanho a sua carreira televisiva desde a época do H, programa da Band, e vi sua ascensão à Globo, emissora na qual você apresenta seu atual programa, o Caldeirão do Huck, o qual acho de mau gosto. Primeiro pelo nome: “Caldeirão do Huck”. Meio pretencioso colocar o próprio sobrenome no programa, mas entendo que ele não lhe pertence mais: afinal, “Huck”, agora, é uma marca. E quanto mais promovemos uma marca, mais ela é lembrada, certo? Um dos tantos processos da máquina capitalista. Segundo, seu discurso demagogo: engraçado como você gosta de tudo e de todos. Sua imagem de “rapaz atrapalhado” em campanhas publicitárias. Seu “assistencialismo” entre aspas, pois nunca o vi dar nada de mão beijada a ninguém. “There’s no free lunch”, você deve conhecer essa expressão muito bem, não é? Para que alguém tenha um automóvel e/ou casa reformada, é necessário “pagar uma prenda” que, geralmente, consiste de expor cidadãos brasileiros ao ridículo, como fantasia-los de Michael Jackson, Caubí Peixoto ou Beyoncé e fazê-los imitar o dito artista. Mas vou parar por aí. Minha indignação é outra. Começa com o caso de racismo envolvendo o lateral direito do Barcelona e da seleção brasileira Daniel Alves.
Vamos por partes:
Daniel foi genial. Arremessaram-lhe uma banana. Ele curvou-se, descascou a banana, a comeu e cobrou o escanteio. Gênio. Não teria feito melhor.
Neymar publicou uma foto com a hashtag #somostodosmacacos . Não, não somos. Ninguém é macaco, a não ser os próprios macacos. Mais adiante me aprofundarei sobre o assunto.
É aí que você aparece.
Quando vi uma foto sua com a sua esposa, na qual o senhor segura uma banana e posta a dita hashtag, meu estômago embrulhou. “#somostodosmacacos”, você escreveu.
Com quê direito o fez?
O senhor sabe o que é andar pelas ruas à pé, sem uma escolta de segurança? O senhor mora em alguma comunidade? O senhor pega algum coletivo, sem ser pra produzir algum quadro de seu programa? O senhor ganha um salário inferior ao de seus colegas de trabalho brancos? O senhor é parado por policiais para averiguarem se porta alguma arma, entorpecentes ou produtos de roubo simplesmente pela cor da sua pele? O senhor já foi chamado de macaco? Já lhe arremessaram bananas?
O senhor é negro?
Essa foi, a princípio, a minha indignação. O senhor quis, de forma arbitrária, tomar a dianteira e ser protagonista de uma luta por igualdade que não lhe é de direito. Não lhe é e nem nunca será. “#somostodosmacacos”?
Não. Não somos. Pelo menos, eu, não. Sou branco. Nunca me olharam desconfiado pela cor da minha pele. Nunca me chamaram de “tição”. Nunca tomei porrada da polícia por ser mais escuro. Nunca me mandaram tomar o elevador de serviço por ser negro. Nesse ponto, eu posso me comparar a você, mas para por aí: a começar, pela nossa conta bancária e, em última (ou primeira) instância, pelos nossos princípios. Nunca saberemos o que é sofrer, na pele, os abusos e humilhações que a população negra do nosso país sofre pelas atitudes desse rascunho de ser humano que é o racista.
Mas mandá-lo se recolher ao seu lugar nem chega a ser o caso. Acho que você nem tomou nota do que eu quis lhe passar até agora. Sua inteligência, pelo que eu percebi logo depois, não é emocional. Sua inteligência deve ser tão somente aplicada a números. Porque o que me deu realmente nojo da condição humana teve seu andamento algum tempo depois – e ainda nem sei como escrever o que se seguiu. Foi torpe e inumano.
Eu não sei de onde surgiu a ideia de capitalizar em cima desse ato de racismo. Não sei se Neymar e você trocaram figurinhas. Mas vender camisetas com uma banana estilo Wharrol com a mesma hashtag? No dia seguinte? O senhor não tem vergonha? Ética? Moral? Bom senso? O senhor está sendo mal aconselhado?
Não. O senhor está em sua plena faculdade mental. O senhor quer dinheiro.
Camisetas a R$ 69,00? Dividido em 6x? Que público você quer atingir? Pessoas de baixa renda? O favelado? O trabalhador que rala de segunda a segunda, sol a sol, com dificuldade para por comida no prato para ele e sua família? Como vão parcelar isso sem cartão de crédito? Ou as vendas pelo site incluem um carnê como os do Baú da Felicidade? Claro que não! Seu público são brancos de classe média/média alta, pré-universitários/universitários, bombadinhos de malhação, os que saem pra balada beber seus uísques com Red Bull aos fins de semana. Resumindo: seu público, seu auditório de programa. O marketing desse produto hediondo foi direcionado para eles. Basta ver os modelos “macacos” que você usou para propagar seu produto: branco, loira, com óculos hypster. Não há sombra de democratização ou conscientização nessa sua “jogada”.
O senhor não aprendeu nada com a anterior exploração da tragédia pelo seu site Peixe Urbano. Outro tiro no pé.
Espero realmente que sua campanha se torne um fracasso. Espero realmente que sua boca cheia de dentes e suas mãos cheias de dedos aprendam um pouco mais sobre ética empresarial.
Eu não sou macaco. O senhor não é macaco. Os negros não são macacos.
Não propague essa ideia.
Desculpe se não lhe mando abraços. Mas estimo melhoras ao seu bom senso.
terça-feira, 1 de abril de 2014
Gazeta
Austero – que, pra falar corretamente, nem era tão austero assim; na verdade, era até bem romântico – queria se apaixonar. Mas não queria se apaixonar por uma paixão ordinária: queria sentir uma paixão de meninice, daquelas que fazem o peito arfar. A qual, pensava ele, era difícil de voltar a ocorrer. Nos seus vinte e poucos anos, idade de calças longas, de cremes de barbear e de visitas a botequins (se bem que, no caso dos botequins, não os frequentava muito; e, quando o fazia, não era de se demorar), não tinha lá muitas esperanças de que isso pudesse ocorrer novamente. A classificação comum que seus colegas lhe davam era a de “bobo”, pra dizer o mínimo.
Vai que, num dia qualquer, Austero, lendo a Gazeta Vespertina, deu de olhos em um anúncio de classificados:
“Procuro por paixão à primeira vista. Candidato escrever para o jornal.
Sonhadora.”
Estava fisgado. Correu terminar seu café e, a caminho do serviço, tratou de parar ao setor de classificados do jornal. Precisava desesperadamente conhecer a tal da Sonhadora. Porém, o funcionário lembrou-lhe de que era preciso escrever, e não perguntar. O que lhe fez lembrar de que estava preso à maldita malha burocrática do país. Às pressas, pois estava atrasado, replicou tão somente:
“Não precisa mais procurar: acabou de encontrá-la em minha pessoa.
Com carinho,
Outro Sonhador.”
Tratou de anexar seu endereço para que ela lhe escrevesse, e partiu para o emprego.
Depois de uma espera de alguns poucos dias, cheios de angústia, o funcionário dos Correios veio lhe bater à porta. Lá estava a carta tão esperada, com apenas alguns dizeres: Joelma, e o número de seu telefone. Telefone esse ao qual ficou grudado por um par de horas. Ligaria? E se ligasse, o que dizer? Inflou-se de uma coragem extrema e ligou (antes não o tivesse feito, pensou ele alguns dias mais tarde, mas fez bem em fazê-lo, como poderá se verificar mais adiante).
A conversa se desenvolveu mais tranquila do que imaginara. Em poucos minutos, marcaram de se encontrar em um restaurante da moda no dia seguinte.
E assim foi. Encontraram-se, apaixonaram-se (supôs ele, na ocasião), entregaram-se.
Acordou no dia seguinte no apartamento dela, esbaforido, pois ainda era sexta-feira, e céus, estava atrasado para o trabalho. Despediram-se, os dois sorrindo, ele dizendo que iria lhe ligar para se encontrarem novamente.
Encaminhou-se ao escritório sorrindo, assobiando, a passos largos. Todos na repartição viram uma aura de felicidade emanando dele. “Aí tem coisa!”, chegou a comentar um cidadão. E tinha. Mal conseguiu fazer algo no serviço: a principal atração do local era o relógio. Contou os minutos para partir dali até sua casa. Chegando lá, decidiu não ligar: iria fazer uma surpresa. Decidiu passar em casa de Joelma sem anúncio por telefone. Comprou um buquê de rosas no caminho. “Como ela vai ficar surpresa!”, ele pensou. “Como ela irá se derreter toda!”, falou de si par si.
“Como você é sem-vergonha!”, berrou ao ver Joelma, sua mais nova paixão, nos braços de outro, que não os seus, bem ali, na frente de sua casa. Joelma, com um ar de muita dignidade, lhe empinou o nariz e, de braços dados com o rapaz de goma no cabelo e bigodes finos, foram entrando no apartamento sem lhe dar a mínima satisfação.
Nessa noite, Austero se demorou no bar. Bebeu, fez papelão, berrava que a felicidade não existia, chorou. “Outro”, pensou o dono do bar, sem dar muita bola para o frangote, morto em sua dignidade.
Acordou em casa, trajando ainda camisa e gravata. E lembrou da noite anterior. Perguntava-se o que teria acontecido de errado: o que fez de errado? Ela não gostara dele? Por um acidente de grafia, o moço dos classificados teria deixado ”paixão” no singular e não no plural? E assim se passou o fim de semana.
Não precisou muito para que os colegas de emprego percebessem que algo de muito ruim havia acontecido a Austero. Parecia um autômato. Depois de alguns dias, ele era uma criatura de dar dó: barba por fazer, com o visual relaxado, arrastava-se por entre os colegas. Parecia que tinha chumbo nas calças. Candinha também percebeu; apiedou-se dele e, na hora do almoço, chamou-o para tomar um café mais tarde. Ele, alheio a tudo, demorou para perceber o convite, mas acabou por aceitá-lo. Horas mais tarde, foram para o café.
Não é preciso muita imaginação a partir daí. Os cafés deram lugar aos almoços, jantares, namoro, noivado e, finalmente (ufa!), casório. Filhos, netos e um bisneto por vir. E assim passaram a vida, juntos e amando-se um ao outro.
Nalgum dia, no passado, durante essa trajetória juntos, Austero me confessou que chegou a ver Joelma somente mais uma vez na vida. Ela caminhava sozinha pela calçada, e não o percebeu – ou assim o fez pensar. Ele, num sentido primitivo de vingança, ao vê-la desacompanhada, pensou em desfilar com sua recente esposa aos olhos dela: durou poucos momentos. Achou que não seria justo expor a companheira dessa maneira, de modo a fazer um acinte à outra. Apenas atravessou a rua e a deixou (Joelma, é claro) para trás. Para nunca mais. Candinha nunca soube desse episódio.
Nesse dia, soube que ligar para a Joelma, no final das contas, foi a decisão mais acertada de sua existência. Dormiu feliz, bem feliz.
Domingo passado, Austero teve gripe e ficou de cama. Candinha, sabendo como é Austero, foi lhe preparar uma sopa de cebola quentinha para entregar-lhe na cama. Ele agradeceu a ela com um sorriso, não era preciso dizer o quanto ele apreciava o cuidado que ela tinha para com ele. Os dois o sabiam.
- Sabe de uma coisa, Candinha? – disse Austero.
- Sei do quê? – respondeu.
- Acho que amores como o nosso não se encontram em Gazetas.
Candinha sorriu.
sábado, 19 de outubro de 2013
Dois Copos
De primavera
Sem viv'alma para escutar
Encontrei seus olhos chorosos
A desabafar.
e não lhe deixei
Falar e falar.
E não lhe deixei
Falar e falar e falar.
E não parei para escutar
Pronta a desabafar.
E toda tristeza
Que nelas há.
Falar e falar e falar.
também bater aqui,
Dentro dum peito a arfar.
Sem prazo a terminar.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
As Bolhas
Posso ver daqui,
entre o Sol e meu olhar,
seu próprio olhar curioso
a mirar a superfície verde da lagoa.
Algo reluz:
"Que tem lá, querido?
Acharemos algo de valor?
Tornaremo-nos príncipe e princesa,
seremos capa de revista,
chamar-nos-ão para festas distintas!"
Logo tu,
que nunca quiseste coroa!
Mas algo em teu sorriso mudou
tão repentinamente
que mal percebi se foi de momento
ou se o carregava a mais de ano.
Nesse lago parcialmente raso,
qual de nós terá coragem de descer,
ponta-cabeça, até o fundo,
tocar-lhe com as mãos?
Que encontraremos lá embaixo?
Entre troncos e cavernas submersas,
haverá lodo, anéis, tesouros?
Saberia dizer perfeitamente o que há lá,
mas esse teu sorriso...
Pensai bem antes de dirigir-se ao pé dessas águas turvas:
lembra-te que me arrastarei contigo
(não faz meu estilo deixá-la só, esse nunca fui eu).
Lembra-te que arrasta outro junto.
Talvez o fôlego dê,
talvez nos afoguemos antes.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Marejar
É porque o desconheço.
Não vejo a força do seu arrasto:
posso imaginá-lo
terrível, atraiçoador,
devorador do que um dia foi vivo.
antes da minha?
Quantos homens jazem ali,
a poucos metros,
Nas espumas de suas cristas?
previamente,
sei que não haverá luar,
adianto-me a ele.
A ele estarei intimamente ligado.
Que eu me perca nele hoje e por toda a minha vida
a partir de agora.
Traga-me,
e não me permita voltar.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Finjo Não Importar-Me
Uma linda manhã de sexta-feira.
Olhei pela manhã de uma sexta a coloração avermelhada das bordas das nuvens que pairavam no céu. Olhava para o oeste: sabia, portanto, que estava amanhecendo. O sabia antes de olhar para as nuvens, claro. Mas o avermelhado do princípio das nuvens me dava a certeza.
Claro que de dentro do carro poderia ter feito aos outros notarem o que eu via. Mas desnecessário fazer isso. Era momento meu, unicamente. E sorria por não compartilhar com ninguém mais. Era meu, bastava.
Não, não quis puxar papo com ninguém. Eu estava respirando o ambiente, com uma brisa gelada fazendo os pelos da barba endurecerem. Não era um incômodo, propriamente. Era a comodidade de me saber livre de preocupações e pleno de segredos. Vivo, compreende? Um novo dia.
Cada um que note o céu como bem entende.
Foi um pássaro negro que me fez notar essa imagem. Mais que imagem, sensação e consciência. Um dia a mais cabendo no esgar de um sorriso que transbordava de meu peito. Conscientemente escondido, inconscientemente demonstrado, abafado por egoísmo, puro egoísmo.
Não sou eu que farei aos outros notarem a beleza de um amanhecer potente e invencível.
E, nesse meio-tempo, as asas negras desapareciam, não sei ao certo se por detrás de um poste, um armazém ou por detrás de minhas retinas. Nunca saberei ao certo. Mas estava lá.
Estávamos todos lá, e ninguém além de mim. Vivos - e, espero, caso você não tenha notado aquela manhã de sexta-feira, que note as que virão.
Estamos recheados de dias da semana.
Um sorriso para todos vocês.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Micro Contos
Entrou no bar, punho em riste:
- O Diabo é que ela não entende! A distância é necessária, pelo menos um tiquim assim. Por que infernos ela não vê que eu estou sempre junto a ela? Nossa alma não separa mais. Se nós tivéssemos 20 anos ainda, vá lá...Que é isso que você está bebendo?
- Conhaque.
- Dá-me cá.
Virou de uma talagada, estalou a língua, limpou a boca com as costas das mãos.
- Percebeu?
Sorrindo, o balconista respondeu:
- Percebi.
Deixou uma dose de conhaque na pendura e partiu.
quarta-feira, 27 de março de 2013
Apenas Mais Uma Entre Tantas E Tantas E Tantas Definições De Amor
A praia estava deserta ao amanhecer, e eles estavam ali, sentados, braços entrelaçados. Altamente recomendável para qualquer casal que seja.
A brisa é fria.
O som é onda - literalmente.
É muito mar.
Ali estavam, abandonados, entregues e cúmplices de um momento só seu. Era entendimento comum entre os dois, e, apesar de não saberem, compartilhavam o mesmo feeling.
Quando não é preciso câmera, filmadora, compartilhamento na net. Ali, presente, está o fingerprint que os marcará para sempre. Tá no peito.
Ele olhando pro mar, surge o rosto dela por detrás do rosto do amado. Ela está sorrindo, notando-o, percebendo-o. Ele saca, devolve o olhar e o sorriso.
As cabeças se encostam uma à outra, suavemente, como num abraço. Dois corações se encontram, mesmo ritmo. Eles batem juntos juntos juntos, juntos de tão perto.
O mar tá ficando brabo. E quem há de notar? Só os dois, vistos de costas, horizonte cortado por céu e mar.
Acho que amor é isso. Só pode ser isso.
terça-feira, 26 de março de 2013
Jacó
terça-feira, 5 de março de 2013
Porque Detesto Musicais
Imagine você no ônibus, indo para o serviço. Após pagar a passagem, o cobrador lhe dá o troco, e você diz "obrigado". De repente, todos no ônibus se levantam e começam a cantar:
♫ "Obrigado, obrigado/que palavra linda de dizer
Obrigado, obrigado/as crianças deveriam aprender a dizer ao nascer!" ♫
Aí todos começam, como que por encanto, a dançar no mesmo ritmo e com passos sincronizados:
♫ "Quando alguém um favor lhe fizer/saiba bem o que responder
Obrigado, obrigado/esteja sempre pronto a dizer!" ♫
Aí você desce do ônibus, vai acender um cigarro (apenas imagine que você fuma), e então percebe que esqueceu o isqueiro em casa.
"Puta que pariu, esqueci o isqueiro!"
Trezentas mil pessoas aparecem com isqueiros acesos para acender o seu cigarro.
♫ "Isqueiro, isqueiro/foi o homem que inventou
Prometeu nos deu o fogo/então o homem se queimou!" ♫
Então, roubam o seu cigarro e o rebentam no chão. Você, puto da cara, fica assistindo à cena:
♫ "Mas o cigarro faz mal/melhor pra você é caminhar
Pare de pegar o ônibus/e vá a pé trabalhar!" ♫
Subitamente, todos somem com seus passos ritmados.
Aí você chega ao serviço (sem ter fumado), e lhe dá uma dor de barriga. Tu se encaminha ao banheiro, baixa as calças e se alivia. Quando vai procurar o papel higiênico, vê que não tem mais. Aí, você mete a mão no rosto e solta um "puta que pariu!"
Todos no escritório:
♫ "Puta que pariu/puta que pariu
acabou o papel do banheiro
Puta que pariu/puta que pariu
vai ficar cagado o dia inteiro
Se você for um cara audaz
abrirá a carteira e se limpará com uma nota de cem reais...
...ou então ficará assado
e terá que usar Hipogló..." ♫
Então entra uma criança em cena caminhando lentamente até o corno que lidera a coreografia e a canção e diz:
"Nã-nã-não! É proibido merchandising!"
O crowd faz "ooowwwnnn!!!"
Então o corno sorri, olha a criança de lado, se abaixa até ficar na altura dela e brinca com o seu nariz:
"Ok, então!"
A música entra em ritmo lento, aparecem dançarinas de maiô fazendo o cancan e cantando, abraçadas:
♫ "Se não limpar essa bunda/vai ficar com o cu assadoooooooo...
Com o cu assado/ninguém o irá querer como namoradoooooo!" ♫
E, pra finalizar, aparece o Miguel Falabela com uma camisa social, gravatinha rosa e coletinho florido por cima, fazendo pose de toureiro espanhol e gritando:
"EEEEEEPAAAAAA!"
Se você conseguiu imaginar tudo isso, deve ter uma mínima noção que seja do porquê de eu não gostar de musicais, muito menos de Glee.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Carne Viva
As luzes estão apagadas, as cortinas cerradas. Tem receio de que o rapaz, alguns anos mais novo, não a ache atraente. Ela mesma não se acha mais. Foi-se o tempo no qual ela tinha o corpinho enxuto. "O casamento e os dois filhos acabaram comigo", pensa. E repete isso para a amiga mais íntima, que sempre faz uma cara de que ela está sendo dura demais consigo. "Nem! Você é uma mulher bonita, pare de falar besteira!", diz a amiga. Mas ela percebe (ou quer perceber) que a amiga fala com um sorriso malicioso, com um arzinho besta. A amiga também é mais nova. "Queria ver é como ela vai ficar daqui a uns seis, sete anos pra frente!", se pega pensando nisso.
"Ele poderia ficar aqui comigo, dormindo, depois de terminarmos. Será que vai ficar? E se ele não ficar?"A insegurança nesse momento preenche todo o quarto, todo cantinho esquecido entre os móveis ao redor parecem estar com a atenção voltada para ela. Finalmente se sente nua, nua e despudorada. "Será que ele está percebendo?", pensa. "Será que ele está notando algo?", pensa. O medo a faz chorar. E se sente feia, presa àquela situação ridícula, enquanto escuta o estranho bufar por cima dela, o hálito impregnado de álcool. Contém a respiração, torcendo para que ele não perceba nada.
"Será que ele está percebendo algo?"
Sua, e como sua! Presta atenção na empolgação do público, sempre um bom medidor para saber se agrada ou não. E, apesar de saber que o trabalho foi bem feito, que não há nada mais que possa ser feito a não ser ditar o ritmo, teme o desastre de algum componente da bateria falhar.
sábado, 26 de janeiro de 2013
Briguinha de Bar
- Vilão, eu? Ousas? Vilão, tu, mil vezes vilão! Pois saibas tu, digníssimo cavalheiro, que aceito tal desafio de mui bom grado, pois a dita moça é objeto de meu desejo desde dantes meu nascimento, ora! Não sabes tu que, uma vez unidos dois corações, com a graça de Deus, sim! com a graça do criador, se fazem uno e inseparáveis? Vossa mercê saiba que eu, nobilíssimo cavalheiro que sou, aceito prontamente ao seu desafio. Às armas! Em desacordo com suas afirmações, digo-te: tu! Tu é que serás o corpo inerte, de olhar embaçado, com o fio da vida escorrendo a partir de seu tórax, ao alvorecer. E levarei comigo Gleycciane, para que vivamos o amor imaculado destinado pelo firmamento para todo o sempre. Encontraremo-nos mais adiante, e, a partir de lá, no pós vida! Apresentar-lhes-ei minhas gerações futuras, e que Deus tenha piedade de minh'alma por tão débil assassinato, mas em nome do amor, que tudo vale e tudo perdoa!
Wandercleysson Silva versus Jaques Custôu de Oliveira, em baile funk no Morro da Cocada, disputando o amor da novinha G. M .da N., presenciado por mim, Pecoslau Alferes Cândido de Pereira Nóbrega Santos Andrade de Costa e Silva Ourives Maceeira.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Anti-Frases
Internaram-no no manicômio. Trocaram seu amigo por Gadernal.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Home
Originalmente publicado em 10 de março de 2012.
Parada Para Prosear Um Tiquim
TIC TAC TIC TAC
TIC TIC TAC TAC
TAC TIC TIC TAC
TAC TAC
TAC
TAC
Ando enumerando as frases,
sílabas, letras, tudo em
ritmo, ritmo, ritmo,
às vezes livre de métrica:
mas ando só pensando verso.
Estou virando um conciso,
tentando não me atrapalhar
nas palavras. Até meu
modo de andar cadenciou.
Porque larguei da prosa.
E agora minhas conversas
vem acompanhadas de
um dedilhar contador
(dactilioindependência),
por isso preciso voltar à prosa
e dar um tempo na boemia.
Posto que eu viva só poesia,
ahhh! aí, meu amigo,
uma hora ou outra
a poesia acaba comigo.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Haikais pt. 01 (de vários, espero!)
Apesar de acabar de conhecer a estrutura dessa categoria de poesia, tentei aplicar o kigô aqui, porém, como são apenas quatro as estações - achei muito pouco quatro haikais, de estações estamos bem servidos - , decidi produzir mais quatro. É isso.
E vamos que vamos!